A indignação no Egito com 'injustiça' de sua eliminação da Copa na derrota para a Argentina: 'Fomos roubados'

O jogador egípcio Mohamed Salah discute com o árbitro François Letexier, durante a partida da sua seleção contra a Argentina, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026

Crédito, Getty Images

    • Author, Neil Johnston e Alastair Telfer
    • Role, BBC Sport
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  • Tempo de leitura: 9 min

Com 12 minutos restantes no tempo regulamentar, o Egito estava a um passo de seu melhor resultado em Copas do Mundo.

Os Faraós venciam a Argentina — então campeã mundial — por 2 a 0 no estádio de Atlanta.

A nação africana apaixonada por futebol vislumbrava uma vaga nas quartas de final pela primeira vez em sua história.

A partir daquele momento, tudo deu errado. Terrivelmente errado.

Quando Cristian Romero diminuiu o placar aos 79 minutos, o Egito se fechou na defesa.

Mas o pânico tomou conta da equipe quando o capitão argentino, Lionel Messi — quem mais? — empatou o jogo em 2 a 2 quatro minutos depois.

Enzo Fernández completaria uma virada espetacular com um gol de cabeça no segundo minuto dos acréscimos, fazendo 3 a 2 e garantindo a vaga da Argentina nas quartas de final.

O Egito estava derrotado e furioso com diversas decisões da arbitragem.

Um desses momentos foi a decisão do árbitro de vídeo (VAR) de anular um segundo gol de Mostafa Zico devido a uma falta anterior do meio-campista Marwan Attia, que havia pisado levemente em Lisandro Martínez no início da jogada — num momento em que a equipe africana vencia por 1 a 0.

Eles também insistiram que Mohamed Salah havia sofrido uma falta dentro da área da Argentina poucos segundos antes de os atuais campeões marcarem o gol da vitória.

"Há muita inconsistência atualmente em relação ao VAR e às decisões tomadas, bem como sobre até que ponto a jogada é revisada para anular uma decisão", disse Ahmad Yousef, especialista em futebol egípcio, à BBC Radio 5 Live.

"Já havia se passado um tempo considerável e a falta foi mínima; por isso, entendo perfeitamente por que a comissão técnica e o elenco do Egito estão tão decepcionados."

Quando o árbitro francês François Letexier apitou o final da partida, muitos jogadores egípcios caíram no gramado, sem acreditar no que acabara de acontecer.

Salah trocou de camisa com seu ex-companheiro de Liverpool, Alexis MacAllister, antes de deixar o campo de cabeça baixa, enquanto outros jogadores balançavam a cabeça em sinal de incredulidade.

Em uma entrevista explosiva após o jogo, o técnico do Egito, Hossam Hassan, afirmou que sua equipe havia sido "tratada de forma injusta".

"Há muitas coisas a questionar, tanto dentro quanto fora de campo", acrescentou Hassan.

"Pontos negativos por toda parte. Tudo se resume à credibilidade — ou melhor, à falta de credibilidade — em relação a como os acontecimentos se desenrolaram.

"Talvez quisessem que os campeões mundiais permanecessem na competição. Talvez quisessem que Messi continuasse na disputa pelo título", sugeriu ele.

"Os campeões mundiais receberam apoio em todos os níveis. Parece haver uma pressão da Argentina para que esse resultado se concretizasse."

Na quarta-feira (8/7), a Associação Egípcia de Futebol (EFA, na sigla em inglês) afirmou ter solicitado à Fifa a expulsão da equipe de arbitragem que esteve a cargo da partida.

A EFA afirma ter apresentado uma queixa ao organismo que rege o futebol mundial e deseja uma investigação sobre o "duplo critério" da arbitragem durante o jogo disputado em Atlanta, nos Estados Unidos.

A associação pediu uma investigação da equipe de arbitragem de campo e dos árbitros de vídeo, devido ao que considera "erros flagrantes e insistência em não revisar parte das imagens".

O órgão "exigiu a exclusão do árbitro e de toda a equipe da Copa do Mundo, após a investigação desses erros", alegando "crime de discriminação contra a seleção nacional egípcia".

A BBC Sport entrou em contato com a Fifa, pedindo comentários a respeito.

A partida teve de tudo: defesa de pênalti, gol anulado, cartão vermelho (para um membro da comissão técnica do Egito) e uma virada emocionante.

A BBC Sport relembra um jogo que entrará para a história da Copa do Mundo, na qual uma equipe que perdia por dois gols nos minutos finais conseguiu vencer sem a necessidade de prorrogação.

'Sofremos uma injustiça'

Ao comentar o histórico ruim de sua seleção em Copas do Mundo, o técnico do Egito, Hossam Hassan, havia dito na véspera do torneio: "Precisamos ter um desempenho melhor na Copa do Mundo".

O Egito chegou à Copa do Mundo na América do Norte como uma equipe que historicamente apresentava desempenho abaixo do esperado no torneio, tendo fracassado em suas três participações anteriores — nas quais não venceu nenhuma das sete partidas disputadas.

Após conquistar sua primeira vitória na história ao derrotar a Nova Zelândia em um jogo da fase de grupos em Vancouver, no dia 22 de junho, os Faraós saíram na frente contra a Argentina — tricampeã mundial — quando Yasser Ibrahim marcou de cabeça aos 15 minutos.

Em uma partida repleta de emoção, o goleiro egípcio Mostafa Shobeir fez uma defesa magnífica ao impedir o gol de Messi em uma cobrança de pênalti; logo depois, os Faraós chegaram a acreditar que haviam marcado outro gol, mas ele foi anulado.

O gol de Fernández nos minutos finais gerou ainda mais indignação, já que o Egito vinha reclamando de um pênalti após uma falta sofrida por Salah dentro da área.

Um membro da comissão técnica egípcia que estava no banco de reservas foi expulso, e o técnico principal do Egito recebeu um cartão amarelo.

"Não estou convencido com esse resultado. Não estou convencido com a forma como os acontecimentos se desenrolaram durante esta partida", declarou Hassan.

"Um pênalti foi negado. Um segundo gol foi inexplicavelmente anulado. O VAR sequer foi consultado, embora todos nós tenhamos visto a imagem da camisa sendo puxada", lamentou ele.

"Não vou assistir a mais nenhuma partida desta Copa do Mundo. Essa é a minha maneira de expressar minha opinião."

O atacante egípcio Zico acrescentou: "O árbitro foi realmente injusto. A injustiça foi evidente. Houve injustiça desde o início da partida".

O técnico do Egito, Hossam Hassan, discute com o árbitro François Letexier, durante a partida da sua seleção contra a Argentina, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, O técnico do Egito, Hossam Hassan, afirmou que sua seleção 'foi injustiçada'

Será que Salah jogará outra Copa do Mundo?

Enquanto Messi, o norueguês Erling Haaland e o francês Kylian Mbappé marcaram gols regularmente neste torneio, Salah se despede com apenas um gol — o marcado na vitória sobre a Nova Zelândia em 22 de junho.

Contra a Argentina, o capitão egípcio não criou nenhuma chance de gol nem deu passes decisivos.

Salah terá 38 anos quando a Copa do Mundo de 2030 acontecer em Marrocos, Portugal e Espanha.

Embora Cristiano Ronaldo, de Portugal, e Luka Modric, da Croácia, já tenham disputado suas últimas partidas em Copas do Mundo, resta saber se Salah retornará à seleção daqui a quatro anos.

Enquanto isso, a eliminação do Egito deixa Marrocos como a última das dez seleções africanas restantes no torneio.

Marrocos fez história há quatro anos ao se tornar a primeira nação africana a chegar às semifinais da Copa do Mundo.

Os Leões do Atlas enfrentarão a França nas quartas de final na quinta-feira, no Estádio de Boston.

Decisões-chave da arbitragem

Análise de Dale Johnson, correspondente de futebol

Na semana passada, Pierluigi Collina, chefe de arbitragem da Fifa, destacou um critério fundamental dado aos árbitros.

Eles foram instruídos a permitir o contato físico normal inerente ao futebol para aumentar o ritmo das partidas.

Esta Copa do Mundo teve uma média de 22,6 faltas por partida, em comparação com 25 em 2022 e 27 em 2018.

Como isso afeta o gol anulado do Egito?

Attia puxou levemente a camisa de Martínez e pisou de leve em seu pé.

Mas o VAR interveio para anular o magnífico gol de Zico devido a uma falta.

Claro, pode-se argumentar que foi falta, mas fazê-lo seria inconsistente com a forma como o torneio tem sido arbitrado.

Se você permite essas ações durante o jogo, então deve aplicar o mesmo padrão com o VAR.

Você se lembra de Aleksandar Pavlovic acertando Pedro Vite (Equador) na cabeça com a chuteira? Não houve intervenção do VAR no lance do gol de Leroy Sané que se seguiu.

A falta ocorreu muito tarde na jogada? O VAR analisa como a fase de ataque começa — especificamente, como a posse de bola foi conquistada.

Como a jogada levou diretamente ao gol, ela deveria ter sido revisada, mesmo tendo acontecido 17 segundos antes.

O lance mais infeliz para a equipe de arbitragem foi a possível falta em Salah na jogada que originou o gol da vitória de Fernández.

Dentro da área da Argentina, Salah caiu, alegando que Julián Álvarez o havia derrubado. Isso também não deveria ter sido revisado pelo VAR?

Foi semelhante à jogada de Attia, exceto por uma diferença crucial.

Salah estava dentro da área, então o VAR considerou um possível pênalti — que tem um limiar mais alto do que uma falta comum.

Se Salah estivesse fora da área, a consistência teria exigido a intervenção do VAR. Como não houve contato suficiente para pênalti, o gol da Argentina foi validado.

Protestos contra os árbitros e suas decisões raramente têm algum efeito na Copa do Mundo.

O comitê de arbitragem talvez possa mandar silenciosamente os árbitros de volta para casa, mas as reclamações acabam recebendo pouca atenção.

Na Copa de 2022, a França apresentou um protesto após sua derrota para a Tunísia, por 1 a 0, no último jogo da fase de grupos.

A seleção francesa teve um gol anulado nos acréscimos por uma análise do árbitro de vídeo que infringiria o protocolo do VAR.

Como de costume na Fifa, o recurso foi rejeitado com uma declaração muito curta, sem explicar os motivos.

"O Comitê Disciplinar da Fifa rejeitou o protesto apresentado pela Associação Francesa de Futebol, em relação à partida Tunísia x França pela Copa do Mundo da Fifa, disputada em 30 de novembro."

A questão, em relação às queixas das federações de futebol contra os árbitros, é que as decisões são quase sempre subjetivas.

É da natureza humana que os árbitros cometam erros, o que não significa que exista algo suspeito.

Estas reclamações, levantadas no calor das emoções da derrota, tendem a se dissipar.

Por isso, não espere ouvir muito da Fifa a respeito.

Orgulho egípcio e coração partido

Torcedora egípcia decepcionada com derrota da sua seleção para a Argentina

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Os torcedores egípcios ficaram arrasados ​​após a derrota de sua seleção

Por Shaimaa Khalil, correspondente da BBC na América do Norte

Eu tinha acabado de desligar o telefone com meu sobrinho de 9 anos.

"Misha, é um desastre. Fomos roubados!", disse ele, entre lágrimas de raiva.

Imagino que conversas semelhantes estejam acontecendo em casas e grupos de família no WhatsApp, onde quer que famílias egípcias — como a minha — estejam assistindo a isso hoje à noite.

Dizer que o resultado partiu meu coração seria pouco.

Esta partida levou os torcedores a uma montanha-russa de emoções: da esperança, passando pela fé, até a euforia absoluta... antes de dar lugar à raiva e, finalmente, à angústia.

"Como egípcio-americano, senti cada minuto disso", disse-me Sami Elmansoury, de 41 anos.

"Ver o Egito passar de sua primeira vitória em Copas do Mundo para jogar de igual para igual com a Argentina é algo que jamais esquecerei. Nada pode manchar o que esses jogadores mostraram ao mundo hoje. O desempenho deles ao longo deste torneio ficará gravado em nossas memórias."

E acho que é assim que muitos egípcios se sentem hoje à noite.

Orgulho... e decepção. Eles não jogaram como perdedores; jogaram de igual para igual.

Esta seleção conquistou algo que nenhuma outra equipe egípcia jamais havia alcançado. Eles elevaram o moral de uma nação e de toda uma região.

O lema deles ao longo deste torneio foi "Mekameleen", que significa "vamos continuar".

E foi o que fizeram.

Hoje à noite, as ruas do Cairo, de Alexandria e de outras cidades egípcias estarão mais silenciosas do que os torcedores esperavam. Esta Copa do Mundo pode ter terminado em decepção, mas também deixou os egípcios convencidos de que esta seleção pertence à elite do futebol mundial.

Este artigo foi escrito originalmente em inglês, e utilizamos uma ferramenta de inteligência artificial para traduzi-lo. Um jornalista da BBC revisou o texto antes da publicação. Leia mais sobre como usamos IA.