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O que reação de Trump à vitória de Lula diz sobre relação entre Brasil e EUA

Crédito, Andrew Harnik/Getty Images
- Author, Luis Barrucho
- Role, Serviço Mundial da BBC
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quebrou o silêncio na tarde de segunda-feira (26) e se manifestou sobre a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial brasileira.
Em conversa com jornalistas, Trump afirmou, sem apresentar provas, que a eleição brasileira "pareceu ter fraude". Também considerou "muito estranha" a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação em algumas localidades.
Questionado sobre uma possível resposta dos Estados Unidos ao resultado, porém, descartou qualquer ação.
"Eu não estou governando o Brasil. Estou governando os Estados Unidos. Eu gosto do Lula. Tenho uma relação muito boa com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha", declarou.
Com 100% das urnas apuradas, Lula recebeu 64 milhões de votos (51,79% dos válidos), enquanto Flávio Bolsonaro (PL) obteve 59 milhões (48,21%). O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08 de domingo.
A manifestação de Trump ocorreu quase 20 horas após a confirmação da vitória de Lula. Quando se pronunciou, líderes de diversos países, inclusive governantes de direita da América do Sul, já haviam reconhecido o resultado e parabenizado o presidente eleito.
A demora chamou atenção porque, nas últimas eleições presidenciais brasileiras, Washington reconheceu rapidamente os vencedores.
Em 2022, Joe Biden parabenizou Lula por vencer eleições "livres, justas e confiáveis" antes mesmo de Jair Bolsonaro admitir formalmente a derrota. Em 2018, Trump telefonou para Bolsonaro na noite do segundo turno. Barack Obama felicitou Dilma Rousseff no dia seguinte à votação em 2014, enquanto George W. Bush ligou para Lula cerca de um dia após sua vitória em 2002.
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Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil antes da declaração de Trump, a demora refletiu a frustração do presidente americano com a derrota de um aliado, mas a própria declaração de Trump sugere que a relação entre Washington e Brasília tende a ser guiada mais pelo pragmatismo do que pela ideologia.
"A expectativa era de que o Brasil aderisse ao Escudo das Américas, negociasse a exploração de minerais críticos e seguisse a linha de Trump, como vários governos da região, entre eles Colômbia, Chile e Peru", disse Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane.
Lançado por Trump em março, na Flórida, o Escudo das Américas é uma coalizão de segurança voltada ao combate aos cartéis e ao narcotráfico que, segundo analistas, também busca conter a influência da China na região. O Brasil ficou de fora da iniciativa.
"O fato de isso não ter acontecido será uma decepção para o governo."
Pereira vê ainda possíveis reflexos da eleição brasileira na política doméstica americana.
"É um sinal de que a estratégia do governo Trump não teve sucesso total e pode contribuir para uma provável derrota dos republicanos primeiro na Câmara e depois no Senado", diz. No dia 3 de novembro, os EUA vão às urnas para as midterms, as chamadas eleições de meio de mandato, que renovam parte do Congresso americano.
Monica de Bolle, pesquisadora sênior do centro de estudos Peterson Institute for International Economics, em Washington, também vê a vitória de Lula como um revés para a estratégia regional da Casa Branca.
"A primeira coisa que o silêncio de Trump revela é que ele perdeu", disse à BBC News Brasil também antes da declaração do presidente dos EUA nesta segunda-feira.
"Não se trata nem do Brasil, mas da aposta que ele fez na América Latina."
Segundo ela, Trump acreditava que poderia influenciar disputas eleitorais na região à distância. A estratégia teria funcionado em alguns países, mas falhou no Brasil.
"Ele foi derrotado no caso brasileiro."
Apesar disso, De Bolle avalia que o presidente americano acabará buscando diálogo com Lula.
"Lula é um vencedor e Flávio Bolsonaro é um derrotado", afirmou. Para ela, a vitória do petista teve características que costumam despertar a admiração de Trump.
"Foi uma vitória de virada", construída com "manifestações nas ruas" e "mobilização popular", algo que seria "tudo o que o Trump gosta".
"Em algum momento, ele terá de iniciar uma conversa com Lula, e eu acho que vai fazê-lo", diz De Bolle.
Análise semelhante é feita por Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres.
Na avaliação dele, existem correntes distintas dentro do governo americano. De um lado está o secretário de Estado, Marco Rubio, crítico de Lula e da política externa petista. De outro, Trump, que costuma admirar líderes que considera politicamente fortes.
Segundo Sabatini, o presidente americano "reconhece pessoas que têm jogo, carisma, que são vencedoras".
"Trump odeia perdedores", resumiu.
Para o pesquisador, Lula reúne características que podem despertar respeito em Trump.
Sabatini argumenta que, "em muitos aspectos", o petista é "mais parecido com Trump" do que o republicano "gostaria de reconhecer", por ter saído da prisão e retornado ao poder.
"Esta é a minha análise preferida agora: não acho que ele vá querer admitir que isso é uma derrota. Então talvez simplesmente engula."
Pereira também aposta no pragmatismo.
"A leitura do governo Lula, e não acho que seja equivocada, é a de que Trump é pragmático. Ele não é tão ideológico quanto o Departamento de Estado", afirmou.
"Não vejo uma possibilidade realista de a Casa Branca reverter o resultado da eleição. Portanto, a tendência é negociar com o governo que existe no Brasil."

Crédito, Nicolas Hernandez/Anadolu via Getty Images
De Bolle concorda.
Embora espere uma relação "muito tensa", ela avalia que o Brasil pode se transformar em uma espécie de "resistência regional" às posições de Trump sem abandonar a tradição diplomática.
"A entrada facilitada que eles queriam não terão", afirmou.
Mesmo assim, a pesquisadora acredita que os interesses econômicos acabarão prevalecendo.
Segundo ela, o Brasil deverá continuar seguindo uma política de "multilateralismo pragmático", buscando diversificar mercados e parcerias para evitar ser "esmagado" pela rivalidade entre Estados Unidos e China.
O que Lula disse sobre os EUA
No discurso da vitória, Lula indicou que pretende adotar uma postura de independência na política externa. O presidente eleito afirmou que o Brasil não deveria "falar grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos" e declarou que o país "não aceita ser quintal de ninguém".
"A gente falava igual com todo mundo", completou. Ao comentar a mobilização na avenida Paulista, disse que o Brasil "não aceita ser quintal de ninguém". Criticou também a "intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais", sem citar governos.
No encerramento, em tom de brincadeira com aliados de campanha, entre eles André Janones, a quem chamou de "general", afirmou: "Duvido que a Rússia, a China ou os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia deste país."
Para Sabatini, ainda é cedo para saber exatamente qual caminho Lula seguirá.
A questão, segundo ele, é se o governo utilizará o fortalecimento político conquistado nas urnas para buscar uma nova relação com Washington ou se adotará uma postura mais confrontacional.
"Pode ir para qualquer lado."
Diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que, apesar das críticas de Trump ao processo eleitoral, a tendência é de continuidade na relação bilateral.
Segundo eles, os canais diplomáticos permanecem ativos e não há sinais de que a Casa Branca pretenda adotar medidas concretas contra o governo Lula no curto prazo.
Impacto sobre Flávio Bolsonaro e o que muda para o Brasil no mundo
Os especialistas também avaliam que a posição de Trump tende a influenciar o comportamento do campo bolsonarista.
Sabatini afirma que um ex-embaixador americano no Brasil lhe disse recentemente que qualquer contestação mais ampla do resultado eleitoral dependeria, em grande medida, da posição da Casa Branca.
"Eles não vão se arriscar se Trump basicamente reconhecer o resultado."
No plano internacional, o pesquisador acredita que Lula tentará reposicionar o Brasil como um ator de equilíbrio em um cenário cada vez mais fragmentado.
"Ele vai ver este momento como uma oportunidade para atuar como um equilibrador entre o Sul Global, a Casa Branca e até a Europa."
Na avaliação de Sabatini, a vitória de Lula também aumenta as chances de avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia, que um governo Bolsonaro "provavelmente teria torpedeado".
Em relação à China, ele prevê uma postura ativa, mas cautelosa em temas sensíveis para Washington, como terras raras e investimentos chineses.
Na América Latina, por sua vez, não vê necessariamente um choque entre Lula e os governos conservadores eleitos nos últimos anos.
"O tradicional sentimento de solidariedade na América Latina sempre persistiu, para frustração de gente como Rubio."
Segundo o pesquisador, os governos de direita da região "não são todos iguais". Ele acredita que Lula poderá encontrar áreas de convergência com diferentes lideranças conservadoras, embora preveja relações mais difíceis com aliados mais próximos de Bolsonaro.

























