A cirurgia experimental feita no útero de mãe para 'corrigir' bebê com intestino fora do corpo

Um bebê recém-nascido, usando um gorro branco de tricô e enrolado em um cobertor de hospital com estampas, é segurado junto ao peito da mãe em uma cama de hospital. A mãe, Maisie Savage, usa uma pulseira de identificação hospitalar e tem um curativo adesivo em um dos pulsos. Ao lado da cama, aparece parcialmente outra pessoa, vestindo uma camisa branca. Ao fundo, vê-se um quarto de hospital com pia, bancada e uma área de armazenamento com equipamentos médicos e objetos pessoais

Crédito, Maisie Savage

Legenda da foto, Theo foi operado ainda no útero da mãe, Maisie Savage
    • Author, Camilla Horrox
    • Role, Repórter de saúde global, BBC News
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  • Tempo de leitura: 7 min

Uma gestante de Londres, no Reino Unido, passou por uma cirurgia inédita nos Estados Unidos que permitiu corrigir um defeito congênito no bebê antes do nascimento.

Maisie Savage foi operada quando estava com 26 semanas de gestação. O filho dela, Theo, hoje com cinco meses, tinha gastrosquise, malformação em que a parede abdominal não se fecha completamente durante a gestação, fazendo com que o intestino se desenvolva fora do abdômen.

Os médicos expuseram parcialmente o útero da mãe e, por meio de uma cirurgia minimamente invasiva, recolocaram cuidadosamente os órgãos do bebê no abdômen.

Theo foi o terceiro bebê no mundo a participar desse estudo clínico pioneiro.

Savage, de 29 anos, e o pai de Theo, Josh French, de 36, ambos professores, dizem estar aliviados com o sucesso da cirurgia.

"Ele é um pequeno milagre, não é?", disse Savage à BBC News.

Mas os dois sabem que a história poderia ter sido muito diferente.

O defeito congênito grave afeta 1 em cada 3 mil bebês nascidos no Reino Unido a cada ano. Mesmo nos casos mais favoráveis, os recém-nascidos podem precisar passar semanas em uma unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal, receber nutrição por sonda ou por via intravenosa e ser submetidos a cirurgia corretiva.

Nos casos mais complexos, como o de Theo, a internação em uma UTI neonatal pode durar até seis meses. Além disso, o bebê pode precisar passar por várias cirurgias, receber alimentação por via intravenosa por até dois anos e, em alguns casos, fazer um transplante de intestino.

Mesmo com atendimento médico de excelência, 1 em cada 10 bebês morre.

Um bebê recém-nascido, usando apenas uma fralda descartável, é sustentado por mãos com luvas diante de uma mesa de reanimação neonatal. Uma pulseira de identificação hospitalar está presa ao pulso do bebê. No equipamento, é possível ver um visor com a temperatura e o peso do recém-nascido, além de botões e indicadores. Ao fundo, aparecem equipamentos médicos, tubos e instalações hospitalares. A imagem foi feita em um ambiente hospitalar

Crédito, Maisie Savage

Legenda da foto, Theo se tornou o primeiro bebê britânico a passar por uma cirurgia ainda no útero para corrigir uma gastrosquise complexa

Os pais de Theo não faziam ideia de que havia algo de errado com o bebê durante a gestação.

"Quando fomos fazer o exame de 20 semanas, estávamos apenas ansiosos para ver uma imagem do nosso bebê", disse French, pai de Theo. "Naquela época, ainda nem sabíamos que seria um menino."

French conta que descobrir o diagnóstico de gastrosquise foi um choque e uma experiência "extremamente assustadora".

Com 24 semanas de gestação, médicos especialistas do Great Ormond Street Hospital, em Londres, já preparavam Savage e French para os primeiros seis meses de vida de Theo.

No entanto, depois de constatarem que o bebê tinha a forma mais grave da doença, conhecida como gastrosquise complexa, os médicos o encaminharam ao Hospital Infantil do Texas, em Houston, nos EUA.

Lá, uma equipe de cirurgiões fetais e pediátricos, liderada pelo médico Michael Belfort, conduzia o primeiro estudo clínico do mundo para corrigir a gastrosquise complexa ainda durante a gestação.

Belfort, responsável pelo estudo, já havia sido pioneiro em uma cirurgia semelhante realizada ainda no útero para tratar bebês com espinha bífida.

Um bebê recém-nascido, usando um gorro branco de tricô e enrolado em um cobertor de hospital branco com estampas coloridas, é segurado junto ao peito da mãe em uma cama de hospital. Um acesso intravenoso está conectado ao antebraço dela. Ao lado da cama, o pai, veste uma blusa clara de mangas curtas, apoia uma das mãos sobre o cobertor e usa um relógio inteligente no pulso. Ao fundo, aparecem a cama do hospital, travesseiros, armários, um sofá, equipamentos médicos e janelas

Crédito, Maisie Savage

Legenda da foto, Após a cirurgia, Theo permaneceu no útero até o fim da gestação e nasceu no Texas

Savage foi informada de que precisaria viajar imediatamente para o Texas e permanecer lá até o fim da gestação. "Foi uma decisão enorme", disse.

Como parte do estudo clínico, ela primeiro viajou para o Hospital de Leuven, na Bélgica, onde especialistas aplicaram uma injeção de Botox, através do útero, na parede abdominal de Theo para relaxar a musculatura e facilitar a cirurgia.

Depois, a família voou para o Texas, onde o procedimento foi realizado, em novembro do ano passado, quando Savage estava com 26 semanas de gestação.

French conta que a espera durante a cirurgia foi angustiante. "Aquele dia pareceu durar uma semana", disse. "Foi muito difícil esperar sem saber exatamente o que estava acontecendo em cada etapa do procedimento."

Para realizar a operação, os médicos expuseram parcialmente o útero de Savage para posicionar o bebê. Em seguida, drenaram o líquido amniótico e preencheram o útero com dióxido de carbono (CO₂), ampliando o espaço para a cirurgia. Depois, por meio de cirurgia minimamente invasiva, os médicos colocaram cuidadosamente os órgãos de Theo no abdômen, que foi fechado com suturas.

Infográfico que mostra uma cirurgia pré-natal em quatro etapas. O feto recebe uma injeção de botox na parede abdominal para relaxar os músculos. Em seguida, os cirurgiões abrem temporariamente o útero e, por meio de uma cirurgia minimamente invasiva, recolocam os intestinos do feto no abdômen. Depois, o útero é reposicionado, permitindo que a gestação continue até o nascimento do bebê, por parto normal

Crédito, Hospital Infantil do Texas

Savage ficou com uma cicatriz duas vezes maior do que a de uma cesariana. Mas diferentemente de outras mulheres que se recuperam desse tipo de parto, ela ainda tinha um bebê para gestar por mais 14 semanas.

Ela conta que Theo costumava chutar dentro da barriga e atingir a cicatriz, o que lhe causava dor. "A recuperação foi difícil", disse Savage. "Mas valeu a pena."

A cirurgia foi um sucesso. Theo permaneceu no útero até o fim da gestação e nasceu em fevereiro, de parto normal, no Texas.

Belfort, chefe de obstetrícia e ginecologia do Hospital Infantil do Texas, afirma que ele e a sua equipe estão muito satisfeitos com os resultados obtidos até agora.

"A mãe, o bebê, a cirurgia, o momento em que ela foi realizada, o fato de não termos tido nenhuma complicação durante nem depois da cirurgia fetal... Tudo isso é extraordinário."

Profissionais de saúde, usando aventais cirúrgicos, máscaras e toucas, cercam a mesa de cirurgia. Ao centro, uma pessoa usa óculos e um gorro cirúrgico com a inscrição "Fetal Surgery" ("Cirurgia Fetal"). Ao fundo, monitores exibem imagens de ultrassom e dados do procedimento. Também aparecem suportes de soro e instrumentos cirúrgicos nas laterais da sala de operação. No canto superior esquerdo da imagem, aparece a inscrição "Texas Children's"

Crédito, Hospital Infantil do Texas

Legenda da foto, Michael Belfort diz que ficou impressionado com os resultados da cirurgia

Se o estudo clínico for bem-sucedido, Paolo de Coppi, professor de cirurgia pediátrica do Great Ormond Street Hospital e diretor do centro de pesquisa em células-tronco e medicina regenerativa da University College London, passará a realizar o procedimento no Reino Unido.

"Esperamos poder oferecer esse tratamento a um número maior de pacientes muito em breve", afirmou de Coppi.

Belfort diz estar entusiasmado com a parceria e acredita que a colaboração entre o Hospital Infantil do Texas e o Great Ormond Street Hospital formará uma equipe de excelência.

Mas Belfort já pensa nos próximos passos. "O interior do útero se tornou um novo campo para inovação cirúrgica", afirmou. "Espinha bífida e gastrosquise são apenas dois exemplos. Acredito que, no futuro, poderemos realizar algumas cirurgias cardíacas ainda durante a gestação, assim como determinados procedimentos nos pulmões do feto."

Theo dorme no colo da mãe sentada em um sofá. O bebê veste uma blusa branca de mangas compridas e um macacão azul. Ao lado da mãe, está sentado o pai com um dos braços apoiado atrás dela. Ambos usam microfones de lapela presos à roupa. Ao fundo, há uma parede clara
Legenda da foto, Savage, French e Theo voltaram à rotina em casa

De volta a Londres, Savage diz que Theo está muito bem.

"Tudo o que eles fizeram mudou completamente o rumo da história, que poderia ter começado de forma muito difícil. Hoje ele está ótimo. É, essencialmente, um bebê como qualquer outro."

"Nós nos sentimos extremamente privilegiados", afirma French. "O impacto que eles tiveram na nossa família foi enorme. Desde a equipe do Great Ormond Street Hospital até Belfort e sua equipe, todos nos fizeram sentir muito acolhidos.

"Enquanto estávamos lá, recebemos um atendimento excepcional. Eles amenizaram um dos momentos mais traumáticos de nossas vidas. E hoje temos esse garotinho. Não poderíamos estar mais felizes."