A inédita cena de jaguatirica caçando tatu dentro da toca

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A inédita cena de jaguatirica caçando tatu dentro da toca
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Uma pesquisa que acaba de ser publicada por cientistas do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas) descreve uma cena inédita: uma jaguatirica predando um filhote de tatu-canastra, que estava protegido embaixo da terra.

Embora esse seja um comportamento natural na dinâmica entre diferentes espécies, ela revela que nem o lugar considerado mais seguro para esse animal — a toca subterrânea — está livre de ameaças.

"Ver esse filhote ser predado foi um choque muito grande, porque eu nunca tinha visto uma coisa dessas, e com certeza é algo que deixa a gente muito triste", avalia o biólogo Arnaud Desbiez, presidente do Icas.

Desbiez trabalha com tatus-canastra desde 2010 e diz ter se apaixonado pela espécie quando viu o primeiro vídeo de um animal dessa espécie.

O tatu-canastra habita áreas que vão desde a Venezuela até o norte Argentina e é o maior entre as 25 espécies de tatu conhecidas — ele chega a um metro e meio de comprimento, do nariz ao rabo.

Ele tem uma garra comprida, de até 15 centímetros, que usa para cavar e caçar comida, principalmente formigas e cupins.

Ele passa a maior parte do tempo debaixo da terra, e cava tocas bem profundas, de até 5 metros, onde vive por dois ou três dias antes de começar a fazer uma nova toca.

A questão é que esse bicho tem um ciclo de reprodução bem lento.

A fêmea só atinge a maturidade sexual entre os sete e os nove anos — e ela só tem um filhote a cada três ou quatro anos.

"A taxa de crescimento populacional é muito baixa, então a retirada de qualquer indivíduo tem um impacto na população", aponta Desbiez.

Como os cientistas captaram essa cena

Os cientistas flagraram a cena da jaguatirica no Cerrado, em junho de 2025, com câmeras que detectam movimento.

O vídeo mostra a mãe tatu-canastra deixando a toca, que é um comportamento comum da espécie.

Desbiez explica que, quando a mãe sai da toca, ela fecha a entrada do esconderijo, justamente para evitar a entrada de predadores.

Cerca de uma hora depois da mãe ter saído, a jaguatirica apareceu pela primeira vez, para investigar. Ela voltou no dia seguinte e começou a cavar.

Quatro minutos depois, a jaguatirica saiu da toca com o filhote na boca. Ele só tinha onze dias de vida.

As câmeras mostram que a mamãe tatu voltou à toca várias vezes nas noites seguintes à perda do filho.

Os pesquisadores apontam que não se sabia que existia a possibilidade de um filhote de tatu-canastra ser caçado desse jeito.

"É uma coisa que a gente não esperava ver", admite Desbiez.

Mas o especialista explica que esse é o comportamento esperado pra uma jaguatirica.

"Bem o mal, o filhote é uma presa e a jaguatirica é um predador", pontua ele.

As verdadeiras ameaças ao tatu-canastra

Embora a cena da jaguatirica tenha chocado os pesquisadores que trabalham na conservação do tatu-canastra, eles mesmos admitem que essa está longe de ser a verdadeira ameaça para a espécie.

Na visão deles, o desmatamento, os agrotóxicos, os incêndios florestais, os atropelamentos e a caça são fatores muito mais prejudiciais — e transformam esse animal num dos mais vulneráveis da América do Sul.

Algo que pode representar um problema para todos os ambientes onde essa espécie vive.

"O tatu-canastra é o que a gente chama de engenheiros de ecossistemas", contextualiza Desbiez.

Isso porque esse animal costuma ficar poucos dias na mesma toca — e o local é depois utilizado por outras espécies.

Os pesquisadores já documentaram centenas de espécies diferentes que usam as antigas "casas" que esses tatus construíram e deixaram para trás.

Além de fornecerem abrigo, esses espaços ficam mais quentes quando faz frio na floresta. Ou oferecem temperaturas mais baixas quando está muito calor.

As câmeras do Icas já flagraram tamanduás, quatis, cutias, cachorros-do-mato e até mesmo jaguatiricas usando as tocas construídas pelos tatus-canastra.