Tren de Aragua: como facção venezuelana na mira de Trump age no Norte do Brasil

Policiais da Força Tática prendem um homem por supostamente vender drogas na fronteira com a Venezuela, em 2019

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No início de 2025, a polícia de Roraima localizou um cemitério clandestino em uma região de mata de Boa Vista. Ali, foram encontrados ao menos nove cadáveres, a maioria de vítimas venezuelanas.

Segundo as investigações, os corpos foram enterrados após homicídios cometidos por diferentes criminosos. A testemunha responsável por levar a polícia até o local atuava como olheiro do grupo criminoso Tren de Aragua e afirmou em depoimento que estava sendo perseguida pela facção, que também sequestrou sua família.

Este é apenas um dos casos registrados pelas autoridades de Roraima envolvendo o grupo venezuelano, que hoje está presente em ao menos quatro municípios do Estado.

Fundada originalmente em uma prisão no centro-norte da Venezuela, a cerca de 60 km da capital Caracas, a organização criminosa também atua em vários outros países sul-americanos, como Colômbia, Bolívia, Peru e Chile.

No ano passado, o grupo entrou na mira do presidente americano, Donald Trump, ao ser classificado como organização terrorista estrangeira pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, a mesma designação dada às facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) mais recentemente.

Segundo o governo americano, o Tren de Aragua, também conhecido no Brasil pela sigla TDA, é um grupo "brutal" envolvido em sequestros, extorsão, tráfico de pessoas para exploração sexual, contrabando de mercadorias e migrantes, mineração ilegal, tráfico de drogas e roubo.

Os Estados Unidos ainda acusam a organização de ter mantido vínculos com o governo de Nicolás Maduro, que atualmente aguarda julgamento na Justiça americana por narcoterrorismo, tráfico de drogas e porte ilegal de armas.

De Tocorón para Roraima

Antes mesmo de entrar na mira de Trump, o TDA sofreu um grande golpe em sua estrutura quando, em setembro de 2023, o governo venezuelano retomou o controle do Centro Penitenciário de Aragua.

A prisão, que ficou popularmente conhecida como Tocorón, mesmo nome da cidade onde está localizada, é considerada o local de nascimento da facção e estava nas mãos dos chamados pranes (líderes criminosos) desde o início dos anos 2010.

Há pouco menos de três anos, uma operação encabeçada pelos ministérios da Justiça e Interior do governo do então presidente Nicolás Maduro invadiu o local e tomou o controle.

A tomada da prisão foi vista por especialistas e pesquisadores do tema como significativa para o futuro da organização criminosa. O grupo ficou significativamente enfraquecido e perdeu grande parte de sua cobertura política e aliados no Estado.

Relatos da imprensa local, porém, apontam que as lideranças criminosas foram avisadas sobre a intervenção com antecedência e conseguiram deixar a área com armas e dinheiro.

Atualmente, um dos principais redutos da quadrilha é controlado por Yohan José Romero, também conhecido como Johan Petrica, em Las Claritas, uma das últimas cidades venezuelanas antes de uma grande área florestal que faz fronteira com o Brasil.

É de lá que se acredita que saem as ordens para os criminosos que atuam em território brasileiro.

Mapa da presença do TDA em Roraima

Há relatos de presença do Tren de Aragua em pelo menos seis Estados no país, mas o grupo se consolidou principalmente na região Norte, mais próxima da Venezuela.

Em Roraima, onde a polícia acredita que se encontram as maiores células, a organização se fortaleceu por meio do tráfico de drogas e de armas, controle de esquemas de prostituição, transporte de migrantes, empréstimos e extorsão.

Ronna Rísquez, jornalista e autora do livro O Trem de Aragua: O Grupo que Revolucionou o Crime Organizado na América Latina, afirma que os primeiros indícios de infiltração de um dos braços da facção em território brasileiro datam de 2016.

Em Roraima, os criminosos teriam encontrado condições de vida mais amigáveis do que na Venezuela, onde já eram conhecidos e procurados, além de formas de expandir seus negócios e lavar seu dinheiro ilícito.

"A Venezuela estava em uma complexa situação de emergência humanitária [na época] e o lado brasileiro era mais seguro, apresentava melhores condições", diz a pesquisadora. "Aos poucos eles começaram a comprar propriedades e a se estabelecer."

Apontado como um dos "pais" do TDA, o traficante Johan Petrica teria transitado livremente pela fronteira com Roraima durante anos e, inclusive, tido um filho no Brasil, segundo Rísquez.

Johan Petrica e outros três membros da facção foram indiciados por terrorismo e distribuição internacional de drogas pela Procuradoria dos Estados Unidos em dezembro do ano passado. Seu paradeiro é desconhecido pelas autoridades atualmente.

Narcogarimpo pela fronteira

A cidade fronteiriça de Pacaraima serve como porta de entrada e saída para a circulação dos criminosos entre os dois países.

"A fronteira é composta por uma vegetação baixa que não representa obstáculo para a transposição. Isso é muito propício para a atividade ilegal, para transportar drogas, armas ou pessoas passarem caminhando", diz o delegado Wesley Costa, da Polícia Civil.

As rotas clandestinas e trilhas irregulares que cruzam a área de divisa, conhecidas como trochas, marcam a paisagem nas redondezas e se tornaram um símbolo da penetração da criminalidade na cidade.

Pelas trochas, armamentos desviados de autoridades venezuelanas são transportados com frequência, de acordo com a polícia. A grande maioria deles acaba nas mãos do garimpo.

Hoje, a mineração ilegal é responsável por uma parte importante do lucro do Tren da Aragua no Brasil, segundo Rodrigo Chagas, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e um dos autores do relatório Cartografias da Violência na Amazônia, de 2025.

Além da venda das armas, os criminosos também estão envolvidos no tráfico de combustíveis, alimentos e maquinaria que abastece as zonas de garimpo, diz Chagas.

"Pacaraima é um hub logístico e estratégico da relação Brasil-Venezuela, enquanto Boa Vista é onde as coisas acontecem", aponta o sociólogo, referindo-se aos índices de criminalidade e violência mais elevados registrados na capital do Estado.

Os criminosos venezuelanos ainda ficaram conhecidos por recrutar mulheres venezuelanas para atuar como trabalhadoras sexuais nas áreas de garimpo, segundo os especialistas.

A ligação da facção com a mineração, porém, vem de muito antes da infiltração no Brasil. O grupo controla a extração de ouro em Las Claritas, cujos depósitos estão entre os maiores e mais produtivos do país, pelo menos desde 2010.

Foi por meio desses negócios que um dos braços da facção se estabeleceu e cresceu na região fronteiriça.

Daí nasceu também a parceria do Tren da Aragua com organizações criminosas brasileiras, em especial o PCC e o CV.

O aumento da presença de membros de gangues venezuelanas, entre elas o TDA, nas prisões brasileiras, também teria colaborado para essa união, diz Rísquez.

Traficantes de drogas passam o dia em um ponto de venda de drogas nos arredores de Boa Vista, Roraima, Brasil

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O nível de colaboração entre os criminosos ainda não é totalmente conhecido. Mas sabe-se que a parte das armas desviadas das forças de segurança venezuelanas que não vai para o garimpo acaba nas mãos das facções brasileiras no Sudeste do Brasil, segundo o delegado Wesley Costa, da Polícia Civil.

A cidade de Rorainópolis, o segundo município mais populoso do Estado, serve de base para esse fluxo em direção ao Amazonas, explica o investigador. E as armas de alto calibre, que têm mais utilidade fora de Roraima, são vendidas por ali e no Rio de Janeiro.

Os negócios também se estendem para o tráfico de drogas, com indícios de algum nível de colaboração para o transporte e distribuição de carregamentos de cocaína vindos da Colômbia.

"Essa simbiose nasceu dessa conjuntura local em que nós temos o mercado consumidor brasileiro, o mercado fornecedor colombiano e um corredor controlado por essa facção criminosa", detalha Costa.

"A droga tem escoado por esse corredor, seja no modal terrestre, aéreo ou mesmo fluvial, fluindo pelo Estado de Roraima para outros pontos de distribuição no Brasil e mesmo para outros países, em um arranjo de parceria com facções brasileiras, especificamente com o PCC e parcela do CV."

Dentro de Roraima, mais especificamente em Boa Vista, o Tren da Aragua abastece um esquema de microtráfico voltado especialmente para os venezuelanos, segundo os especialistas, focado principalmente no skunk, um tipo de maconha mais forte.

Violência e intimidação

É, aliás, a comunidade venezuelana que hoje vive no Norte do Brasil que sofre o maior impacto da atuação violenta dos criminosos.

Os imigrantes são alvos constantes de tentativas de recrutamento e extorsão, segundo fontes em Boa Vista e Pacaraima ouvidas pela BBC News Brasil.

No auge do fluxo migratório para o Brasil, a partir de 2018, os abrigos montados pela Operação Acolhida se tornaram um núcleo de criminalidade, com diversos casos registrados de violência sexual e agressões motivadas pela contratação de dívidas com os membros da facção.

Estima-se que mais de 1,4 milhão de venezuelanos migraram para o Brasil entre 2018 e o final de 2025, com mais de 700 mil permanecendo no território.

Muitos membros de gangues venezuelanas se infiltraram entre esses números, diz a Polícia Civil.

Migrantes venezuelanos acusados ​​pelos EUA de pertencerem à gangue criminosa Tren de Aragua em El Salvador

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Legenda da foto, Imigrantes venezuelanos acusados ​​pelos EUA de pertencerem à gangue criminosa Tren de Aragua em El Salvador

O Tren da Aragua não é o único grupo a atuar em Roraima e, muitas vezes, é difícil apontar a qual organização os criminosos juraram fidelidade, aponta ainda Rodrigo Chagas, do FBSP.

"Mas tudo indica que a relação [do TDA] se dá atuando sobre os imigrantes venezuelanos, se aproveitando da vulnerabilidade deles", diz o sociólogo e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

Parte do problema apontado pelos especialistas está na entrada no Brasil, onde redes de contrabando humano e coiotes ligados às facções cobram por transporte clandestino e segurança.

Já em território brasileiro, nos abrigos destinados ao acolhimento dos refugiados, a infiltração das facções diminuiu consideravelmente desde o auge da crise migratória, segundo diferentes fontes ouvidas pela BBC News Brasil.

Mas o temor provocado pelas gangues venezuelanas foi — e ainda é em alguns casos — um tema constante para muitas famílias que buscaram no Brasil uma vida longe da crise humanitária que atingiu o país vizinho.

Uma pessoa envolvida nos esforços humanitários voltados para os refugiados venezuelanos em Boa Vista, que preferiu não se identificar, denunciou diversos casos em que, aproveitando-se da extrema vulnerabilidade e necessidade dos imigrantes, os criminosos os recrutam como mão de obra barata e fácil para transporte de mercadorias e produtos ilegais entre cidades e trabalhos variados no garimpo.

Mulheres também são contratadas sob o falso pretexto de trabalharem como cozinheiras, mas acabam sendo destinadas à prostituição.

Ao chegarem às áreas de mineração, essas pessoas acabam se encontrando em situação de trabalho forçado, precisando juntar gramas de ouro para pagar o que supostamente devem pelo seu transporte e hospedagem, diz a fonte ouvida pela BBC News Brasil.

Ainda segundo ela, imigrantes que desafiaram as regras impostas ou tentaram fugir do grupo sofreram agressões pesadas ou foram vítimas de assassinatos cruéis.

Os abrigos de acolhida também enfrentaram muitos problemas com criminosos que cobravam taxas de imigrantes para acesso a áreas dentro dos complexos ou para receber alimentos que deveriam ser gratuitos.

"Recebi um relato de uma menina que toda noite tinha pedras jogadas em sua barraca no abrigo e tinha que levantar para ter relações sexuais com os criminosos, pois eles ameaçavam uma vingança contra ela e a mãe dela", diz a fonte.

Em nota enviada à BBC News Brasil, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) disse que a proteção das pessoas acolhidas é uma prioridade da Operação Acolhida e que implementa e revisa medidas para prevenir, identificar e lidar com as situaçoes de violência, exploração e violações de direitos.

"A segurança dos ativos da Operação Acolhida e das pessoas acolhidas é realizada pelas Forças Armadas, por meio da Força-Tarefa Logística Humanitária, em estrita observância aos limites legais de sua atuação e em coordenação com os órgãos de segurança pública competentes", diz a nota.

"Importante destacar que a atuação da Força-Tarefa não substitui as atribuições dos órgãos de segurança pública local, mas contribui para a identificação de situações de risco e para o acionamento tempestivo das autoridades competentes sempre que necessário. Nos casos de suspeita ou ocorrência de ilícitos, os fatos são encaminhados aos órgãos responsáveis para investigação e adoção das medidas cabíveis."

O MDS afirmou ainda que são realizados atendimentos individuais e atividades informativas voltadas à divulgação de direitos, prevenção da violência, enfrentamento ao tráfico de pessoas e acesso aos serviços públicos, além da divulgação ampla de canais oficiais de denúncia.

Brutalidade nas ruas

Os casos de violência ligados ao Tren de Aragua não se restringem apenas às áreas dos abrigos. Além do cemitério descoberto em janeiro passado em Boa Vista, também são investigadas pela polícia outras áreas onde os corpos deixados pela facção eram depositados na cidade.

São ainda muitos os registros de barbaridades cometidas pelos integrantes do TDA contra rivais de outras organizações venezuelanas e até contra integrantes da própria facção como forma de punição, diz Rodrigo Chagas.

Segundo o sociólogo, a brutalidade já se tornou uma das marcas da facção venezuelana.

"O Tren de Aragua ganhou fama por ser o grupo que pratica violências mais agudas. Não é simplesmente o fato de matar, mas matar com uma crueldade e uma agressividade muito grande."

Nos últimos anos, as autoridades encontraram em várias ocasiões corpos decapitados ou mutilados, enrolados em colchões e sacos, em áreas de mata ou terrenos baldios em Boa Vista. Segundo as investigações da Polícia Civil, as vítimas eram venezuelanas e foram assassinadas a mando de criminosos do grupo.

No caso do cemitério coletivo encontrado em Pricumã, na Zona Oeste de Boa Vista, a hipótese da polícia é de que os mortos teriam sido alvos do "tribunal do crime" venezuelano.

"Na Venezuela, o embate entre facções criminosas é muito ferrenho", o que fez com que o Tren de Aragua se especializasse em causar terror como forma de dissuasão para que os seus domínios territoriais sejam mantidos, diz o delegado Wesley Costa.

"Eles trouxeram esse mesmo modo de atuação que tinham na Venezuela para o Brasil", afirma.

Policiais encontraram cemitério coletivo em Pricumã, zona oeste de Boa Vista, no início de 2025

Crédito, Divulgação/PCRR

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Em números absolutos, Roraima registrou 174 homicídios em 2024, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo FBSP.

Apesar da violência de gangues, o Estado vem apresentando uma redução nas taxas, com uma queda de 53,8% nos homicídios dolosos entre 2021 e 2024.

"Temos que ter restrições para entrada de venezuelanos. Eles têm que apresentar um atestado de antecedentes criminais. Hoje, eles [criminosos] estão entrando como refugiados", disse o governador.

Denarium também criticou os custos no Estado para atender aos venezuelanos que chegam diariamente e disse que quer construir um pavilhão exclusivo para presos estrangeiros na penitenciária do Estado, com recursos que serão recebidos do governo federal.

"Quando as facções criminosas da Venezuela estão acuadas, saem e entram no Brasil por Roraima. Trabalham com tráfico de drogas, de armas, de pessoas, descaminho, trazendo mercadorias ilegais para o Brasil e fazendo essa comercialização", disse.

"Roraima tem a segunda maior fronteira do Brasil. São mais de 2 mil km de fronteira. Para quem está em Pacaraima, para entrar na Venezuela, basta dar um passo e já está do outro lado."

Procurada pela BBC News Brasil, a Polícia Federal não comentou as falas do governador.

Gráficos por Caroline Souza, da Equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil